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A inteligência emocional dos cognitivistas pode estar te arruinando

  • Foto do escritor: Bruno Ragassi - PITADAS CLÍNICAS
    Bruno Ragassi - PITADAS CLÍNICAS
  • 30 de mai.
  • 2 min de leitura

A inteligência emocional dos cognitivistas pode estar te arruinando

A crescente popularização de conceitos oriundos da psicologia cognitivo-comportamental e da literatura de autoajuda tem difundido um ideal contemporâneo de sujeito emocionalmente regulado, racional e permanentemente adaptado às exigências sociais. Nesse contexto, atributos como equilíbrio emocional, estabilidade financeira, produtividade, autocontrole e bem-estar tornaram-se não apenas objetivos desejáveis, mas frequentemente apresentados como imperativos normativos.

Como consequência, manifestações afetivas intensas, como a ira, a revolta ou mesmo determinadas formas de sofrimento psíquico, tendem a ser rapidamente enquadradas sob a categoria da desregulação emocional. A experiência da raiva, por exemplo, frequentemente é traduzida em protocolos de monitoramento e gestão dos afetos: respirar profundamente, contar até dez, registrar pensamentos em diários emocionais, avaliar a intensidade do afeto em escalas numéricas e, posteriormente, analisá-lo em contexto terapêutico.

Tal perspectiva levanta uma questão importante: até que ponto a busca por uma autorregulação permanente não produz uma relação excessivamente vigilante e policialesca com a própria vida emocional? Não estaríamos diante de uma crescente medicalização e normalização dos afetos humanos?

A reflexão remete, em certa medida, à tradição grega antiga, na qual determinadas paixões não eram compreendidas exclusivamente como obstáculos à vida ética. A ira, por exemplo, podia ser concebida como uma disposição associada à coragem, à dignidade e à capacidade de reagir diante da injustiça.

Na clínica, não é incomum escutar pessoas que relatam dificuldades crescentes em sustentar a espontaneidade de suas emoções. Frases como "não consigo mais ser eu mesmo" ou "não consigo agir naturalmente" apontam para um mal-estar que parece decorrer não apenas do sofrimento em si, mas também da constante exigência de administrar e monitorar a própria subjetividade.

Em uma sociedade marcada por profundas desigualdades, conflitos e tensões, talvez seja necessário preservar um espaço para a indignação, para o descontentamento e para a raiva. Afinal, por mais que possamos analisar, interpretar e elaborar nossos afetos, continuamos sendo sujeitos capazes de nos enfurecer diante daquilo que nos atravessa.

 
 
 

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